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Sugestão de Leitura: “O Retorno da Arquitetura Sagrada”

Este livro faz o leitor enxergar um lado do panorama arquitetônico esquecido. Um panorama muito ignorado pelas escolas e que se encontra num estágio inanimado no que se refere ao âmbito profissional.

“O Retorno da Arquitetura Sagrada” surpreende porque Herbet Bangs, seu autor, partilha o sentimento de caos e demonstra a feiura reinante na grande maioria das cidades de hoje, principalmente aquelas em que o pensamento moderno/contemporâneo se edifica. A grande necessidade de fazer o edifício “ser original” ou ainda ter a “marca registrada” do arquiteto, ergueu edificações movidas por razões mais fora de lógica e de realidade possíveis, por mais que haja um aval dito cientifico-materialista que as respalde.

 Figura 1 – Fonte: guilhermesolari.com
Figura 2 – Fonte: capitalfm.co.ke


Cidade murada de Kowloon (Figura 1).
Proposta arquitetônica contemporânea de um arranha-céu de luxo (Figura 2).


Ambos na Coréia do Sul. Embora possuam contextos temporais e sociais diferentes, 

as duas situações têm a estética feia. 

O autor percebeu isso pelo contraste evidenciado pela Catedral de Chartres, onde a harmonia e ordem da construção revelou ao autor uma visão de mundo diferente, na qual era subjacente à Antiguidade. As construções emblemáticas do passado, independente de qual lugar fossem, não só possuíam soluções estéticas, funcionais e de conforto advindas da sabedoria e da intuição de inúmeros construtores anônimos, mas possuíam também um viés místico, ligada a coletividade, às origens de suas civilizações, e, sobretudo com Deus (ou com os deuses).

Figura 3 – Fontersiqueira.postbit.com
Vista interna da Catedral de Chartres, 
considerado por muitos como um espaço de misticismo e transcendência únicos.

Um dos principais fatores que evidencia essa correlação existente nas construções é a seção áurea. Herbert Bangs, em todo o texto, mostra que a seção áurea, também chamada de número de Deus (phi ou numericamente 1,618) é uma proporção que está presente em todas as estruturas e de tudo aquilo é naturalmente bonito (das partes do corpo humano, do sorriso de uma mulher, das flores, das plantas, animais, galáxias, etc.) e até em alguns comportamentos curiosos como o ritmo da bolsa de valores e da reprodução de coelhos.

Figura 4 – Fonte : mosocorp.files.wordpress.com

Relação de medidas da espiral feita pela concha do molusco Nautilus.
Cada lado da espiral (definida pelos quadrados) revelam uma sequência progressiva, a cada 1,618 da dimensão antecedente, isso também é conhecido matematicamente como série de Fibonacci.
Figura 5 – Fonte: www.cursomonitor.com.br

Relação da distância entre olhos e a medida de um olho.
A divisão entre as medidas resultam num valor próximo a 1,618. 
Quanto mais próximo desse valor, mais bonito será o rosto.

No âmbito da arquitetura a seção áurea é obtida na relação de dimensões entre colunas, janelas, distâncias entre paredes, fachadas e telhado, etc. O que torna agradável aos olhos, belo e organizado, ocasionando um conforto visual na contemplação do objeto. Quanto mais um elemento da construção está próximo do número de Deus, ou a sua proporção com outras medida está mais próxima dele, mais bonito ele será.

Figura 6 – Fonte: s-media-cache-ak0.pinimg.com

Projeto de casa em estilo gregoriano tradicional. 
Para se ter uma noção, a altura da casa possui uma medida “X”. 
Enquanto que sua largura possui dimensão de “X” multiplicado por 1,618.
Figura 7 – Fonte: morozilnik.biz/wp-content

Exemplar de uma casa em estilo gregoriano. 
A casa em si e a sua integração com a natureza é esteticamente agradável. 

A seção áurea pode ser encontrada nas mais incontáveis construções do passado, nos mais diversos e remotos locais, edificados em tempos diferentes (seja uma casa tradicional italiana, seja um mosteiro budista, ou uma igreja batista construída por escravos dos Estados Unidos). Dessa maneira, Bangs conclui como a seção áurea está embutida não só nos elementos da natureza, mas na intuição do ser, numa forma grandiosa o bastante para não ser mera obra do acaso e portanto, se revelando também como um traço do verbo divino.

Figura 8 – Fonte: todoelorodelmundo.files.wordpress.com

Corte interno da Catedral de Chartres que mostra 
a relação das medidas das janelas, colunas e contrafortes. 
As medidas seguem não só a proporção áurea, 
mas também as escalas das notas musicais.

senso estético é algo inato e que pode ser intuitivamente desenvolvido, resultando em relações de medidas com tal grau de perfeição. No decorrer da história das artes e arquitetura, inúmeros estudiosos desenvolveram sistemas e ferramentas que orientassem o artista a trabalhar com a seção áurea de forma mais automatizada e instrumental.
Grosso modo, esta sabedoria está sendo vista apenas como curiosidade no panorama arquitetônico vigente. O seu conhecimento e prática vem sendo gradualmente esquecido, em função da visão de mundo moderno, que possui raiz agnóstica, relativista, tendo a ciência e a flexão político-econômica como chaves civilizacionais.

Esta é uma pequena demonstração do que o livro traz, outros fundamentos estéticos também são tragos à tona. Tudo é bem exemplificado, numa linguagem fácil. O autor Herbert Bangs, um falecido arquiteto norte-americano, que foi diretor de urbanismo da cidade de Baltimore, e trabalhou com figuras célebres como Buckminster Fuller e Louis Kahn, escreveu este livro já no fim de sua vida. E com sabedoria aconselha rever conceitos e verificar vícios da arquitetura contemporânea para um possível resgate da harmonia do homem com a natureza e com o cosmo.

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O Retorno da Arquitetura Sagrada

Autor: Herbet Bangs

ISBN: 978-85-315-1685-6
Ano: 2010
Páginas: 293
Editora: Pensamento

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